Projeto Raízes da Aldeia resgata importância das árvores da cidade

Placas de identificação serão instaladas em quatro plantas, entre elas, as Figueiras centenárias dos bairros Boqueirão e Praia da Pitória
Figueira do Boqueirão tornou-se ponto turístico da cidade. Foto: Bruninho Volotão/Divulgação PMSPA

Antes mesmo que essa terra fosse nomeada Sesmaria Jacuruna, raízes de milhares de árvores fixavam-se no solo. Com olhar mais atento, é fácil notar que elas marcam presença nas pinturas e fotografias que retratam as paisagens desta aldeia. Aparecem em primeiro plano, com copas frondosas, ou simplesmente como graciosas coadjuvantes das memórias construídas aqui. Algumas, de tão especiais, são citadas em livros que registram o passado aldeense. Agora, como reconhecimento da importância ambiental e cultural dessas árvores, a Prefeitura de São Pedro da Aldeia escreve mais um capítulo desta história com o projeto Raízes da Aldeia. 

O projeto terá como ato inaugural a identificação de quatro árvores especiais para a cidade, nesta quarta-feira (22). Serão instaladas, na base, placas com QR Code. O código vai direcionar o morador ou turista a uma página com informações a respeito da espécie e suas singularidades. As escolhidas foram as Figueiras (Ficus sp) centenárias do Boqueirão e da Praia da Pitória; o Fedegoso-do-mato (Senna silvestris) do bairro Nova São Pedro; e o Ipê-rosa do Centro (Handroanthus heptaphyllus). 

A população será convidada a enviar informações à Secretaria de Meio Ambiente sobre outras árvores da cidade, incentivando a preservação e o estreitamento do vínculo afetivo do morador para com o exemplar. A Salina, atendente virtual do município, será a responsável por receber e organizar as informações, compondo um mapeamento da arborização urbana. Ela pode ser contactada por meio do número de Whatsapp (22) 98878-9913. 

Registradas na memória

O livro “Informações Básicas São Pedro da Aldeia”, de 1996, já cita a Figueira da Praia da Pitória, no Porto da Aldeia, como um ponto de referência para a região. “Em um dos extremos há uma frondosa e centenária figueira que, próxima à capela de São Pedro, se identifica como referência do local”, informa a publicação. Atualmente, o arco natural formado por galhos e folhas faz sombra sobre na Avenida Pitória e declina-se até a areia da praia. 

Figueira da Praia da Pitória, no Porto da Aldeia. Foto: Bruninho Volotão/PMSPA

Morador do bairro há 22 anos, Antônio Joaquim Pires acredita que a árvore tenha sido plantada há mais de um século. Ele, que é proprietário de um comércio localizado bem ao lado da Figueira, tornou-se dela o guardião e afirma que não hesitaria em defendê-la. “Ah, a gente se aborrece se maltratarem a árvore, não tenha dúvida. É um crime. Ela fica careca uma vez por ano, agora está com folhas novinhas. Os morcegos também adoram ela por causa do fruto que tem. Agora estou querendo fazer um jardim em volta dela, colocar vasos, para não jogarem lixo”, contou, empenhado. 

Senhor Joaquim tornou-se uma espécie de protetor da Figueira centenária da Praia da Pitória. Foto: Bruninho Volotão/Divulgação PMSPA

Senhor Joaquim, como é conhecido, cuida da Figueira movido pela vontade de retribuir os benefícios trazidos. A secretária de Meio Ambiente de São Pedro da Aldeia, Raquel Trevizam, explica que um dos objetivos do projeto é justamente despertar na população essa consciência ambiental. “A nossa intenção é suscitar atitudes positivas de conservação em cada pessoa. A partir do reconhecimento dessas riquezas naturais por parte do município, esperamos que a população também se engaje com pequenas atitudes”, comentou.

Indentidade aldeense

As árvores permeiam o tempo, observam do alto as narrativas contadas nas praças e calçadas e frutificam infâncias com memórias de molecagem. Assim, a centenária Figueira do Boqueirão tornou-se parte indissociável da história da cidade. Com a economia do município fortemente ligada à pesca, a resistente árvore já era usada na década de 40 como porto de chegada para que as canoas carregadas de tainha pudessem descarregar.   

Francisco Cantarelli é neto de um pescador do bairro Boqueirão e mora há cerca de quatrocentos metros da Figueira desde que nasceu, há 69 anos. Saudoso, ele reconta em tom de alegria as passagens vividas no entorno da árvore com a molecada da vizinhança. “Tinha uns três galhos grandes da Figueira em que a gente se balançava e caía dentro da água, na lagoa. Ela era a árvore mais linda de São Pedro da Aldeia. Em homenagem a ela, plantei outras duas figueiras aqui na praia, uma em 1982 e uma em 1986. Meu sonho era encher essa praia de figueiras”, contou. 

-Velha senhora! Obstinada e constante, tua vida é a nossa vida, o lastro da grandeza de teus dias é um oráculo, perpetuou-se em nossa terra. A raiz que te prende, são veias do coração de São Pedro da Aldeia.

Trecho de poema escrito por Francisco Cantarelli em homenagem à Figueira.

Por pertencer a uma tradicional família da cidade, as gerações que precederam Francisco já tinham uma relação especial com a árvore. “Segundo o relato do meu primo Milton Costa, foi o avô dele que plantou essa figueira em 1888. Ele teria plantado três exemplares, mas duas se perderam”, disse. Hoje conhecida como Figueira caída, a árvore tombou em 2002, mas persiste com vigor às intempéries do tempo. Com memória invejável, Cantarelli lembra com clareza o dia do incidente. 

“Ela caiu em uma terça-feira, no dia 20 de agosto de 2002. Foi um dia de chuva, mas ela já vinha dando sinais de cansaço. Estava enfraquecida, teve uma raiz cortada. Quando eu soube, vim correndo. Ela faz parte da minha infância, da minha vida. E ela vingou, mesmo caída”, concluiu. 

A engenheira florestal Laís Estéfane listou os tipos de maus tratos mais comuns a árvores que ocupam o espaço urbano. “É comum ocorrer o corte das raízes, a poda radical e sem autorização, perfurações com pregos ou qualquer outro material pontiagudo, anelamento da árvore para fazê-la morrer e fogo”, contou. É importante frisar que o Artigo 49 da Lei nº 9.605, de 12 de Fevereiro de 1998, caracteriza como crime ambiental destruir, danificar, lesar ou maltratar, por qualquer modo ou meio, plantas de ornamentação de logradouros públicos ou em propriedade privada. 

Joaquim e Francisco são exemplos de cidadania a serem seguidos pela população aldeense que, a partir de agora, têm mais uma ferramenta para colaborar com a gestão das riquezas naturais do município.  

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